FICHA TÉCNICA
RESIDÊNCIA EM CAMPOS DO JORDÃO
ANO DO PROJETO / OBRA: 2022/2023 - 2024/2025
LOCALIZAÇÃO: Horto Florestal, Campos do Jordão, SP
ÁREA CONSTRUÍDA: 300m2
AUTORES: Gil Mello – equipe: Rafael Rodrigues e Thais Frank
PARTICIPAÇÕES:
- Marcenaria – Sr. Odair
- Revestimentos – Portobello Shop
- Iluminação: Reka
MEMORIAL
Reforma Residencial: Diálogo entre Estrutura, Materialidade e Paisagem.
O projeto apresentado é fruto de uma reforma integral, que partiu da premissa de reaproveitamento das paredes periféricas, fundações e lajes originais da preexistência. Esta estratégia projetual visou otimizar recursos e tempo de execução, viabilizada por um estudo de viabilidade que confirmou a capacidade da estrutura existente em acomodar o novo programa de necessidades.
A intervenção manteve e reconfigurou os dois pavimentos originais, enquanto o antigo sótão foi suprimido para dar lugar a um novo terceiro pavimento. Simultaneamente, o projeto propôs a inserção de terraços descobertos em diferentes cotas, estabelecendo conexões diretas com os dormitórios, a área de estar, o espaço gourmet e o spa.
O acesso principal ocorre pelo nível intermediário, que abriga o programa social: sala de estar, cozinha, uma varanda social e uma suíte. O pavimento inferior acomoda as áreas de lazer e serviços, incluindo espaço gourmet, adega, lavanderia e um spa completo (com banheiro, jacuzzi e sauna). É neste nível que a arquitetura se abre de forma mais franca para o exterior, conectando-se fluidamente ao deck, à piscina, ao jardim e à mata circundante.
No pavimento superior (antigo sótão), localizam-se a suíte master com escritório integrado e um dormitório de hóspedes. Este novo volume foi concebido com estrutura metálica e vedações leves — uma solução técnica que se repete nos reforços estruturais da reforma e na conformação dos terraços externos. A adoção destes materiais introduz uma estética de caráter sutilmente industrial à residência.
A materialidade das fachadas reflete a setorização da casa. Os dois pavimentos originais receberam um tratamento unificado em tons terrosos, estabelecendo um diálogo cromático com a folhagem outonal e a paisagem natural. Em contraponto, o novo volume superior foi revestido em madeira carbonizada (Shou Sugi Ban). Esta distinção material não apenas evidencia a intervenção contemporânea, mas também fragmenta a leitura volumétrica dos três pavimentos. A residência passa a ser percebida em dois grandes blocos, acomodando-se de forma mais harmônica na topografia e na paisagem.
Os terraços desempenham um papel fundamental na composição volumétrica e espacial. Dispostos em diferentes níveis e orientações, eles conferem uma volumetria dinâmica e singular ao conjunto. Cada dormitório desfruta de uma varanda exclusiva, orientada para uma vista específica e sem comunicação visual direta com as demais, garantindo privacidade e diversificando as perspectivas do entorno.
A permeabilidade visual e a relação com a paisagem são diretrizes claras em todo o projeto. O dimensionamento e o posicionamento das esquadrias foram cuidadosamente estudados para enquadrar vistas estratégicas, otimizar a insolação e promover uma integração contínua com o exterior. A alternância entre panos de vidro fixos e caixilhos de correr dissolve os limites entre o interior e a mata exuberante.
Esta conexão transcende o aspecto visual. Os acessos pelos níveis intermediário e inferior configuram-se como convites à exploração do lote, incentivando o uso da piscina, da horta, das trilhas na mata e dos anexos (oficina e ateliê). A arquitetura atua, assim, como um catalisador para a vivência do espaço exterior.
Em contraponto à forte abertura para a paisagem, o projeto assegura o conforto e o acolhimento dos espaços internos, mantendo uma escala intimista. A presença expressiva da madeira nos pisos, forros e esquadrias contrabalança a frieza da estrutura metálica, conferindo calor e aconchego aos ambientes.
O resultado é uma residência que propõe uma transição fluida entre o habitar interno e a vivência da paisagem. Os ambientes internos, de proporções controladas e materialidade acolhedora, oferecem refúgio e conforto, enquanto a arquitetura como um todo convida a paisagem a participar ativamente da experiência cotidiana.
Foto: Manuel Sá